Copyrights 2005 © Isabelle Legault-Tavares
Todos os Direitos Reservados
Apresentação especial - Formato Internet
Versão Comercial : 15,5cm x 23,5cm
PRÓLOGO
Nasci em Nantes, cidade provincial do Oeste de França, no ano de 1960. Segunda de uma família de três raparigas e um rapaz, guardei da minha infância muitas recordações indeléveis.
A casa era rodeada por um jardim que me parecia enorme com as suas flores e árvores de fruta, e os sons, as cores e os cheiros deixaram marcas de felicidade em tons de arco-íris. Os ramos de rosas que a minha mãe dispunha na sala de estar ou no seu quarto, o doce sabor das cerejas cor de sangue que o meu pai colhia aos fins de tarde do mês de Junho ou a nossa alegria de descobrir um manto de neve cobrindo de branco o relvado do jardim, tudo isto está pintado num fundo de inocência e de contentamento, na tela da minha memória infantil.
A minha mãe era uma mulher bonita, elegante e clássica na sua maneira de vestir e parecia passar pelos acontecimentos da vida com uma grande compostura. Ela nutria-nos de um amor sincero e esforçava-se por distribuir o seu afecto com igualdade entre nós e o nosso pai.
Com quatro filhos nascidos no espaço de dez anos, os seus dias não se passavam no ócio, mas ela parecia sempre contente e bem disposta quando chegávamos da escola, cansados e esfomeados, já investigando o que seria o jantar. Os seus sonhos de juventude estavam bem guardados na sua memória, mas nós sabíamos que, adolescente, ela tivera uma imensa admiração pelo aviador Lindbergh e que se os tempos tivessem sido outros, ela teria escolhido uma vida de aventura. Mas de facto o que importava era o presente, e ela encontrara no meu pai, de quem tinha apenas algumas horas de diferença, o seu companheiro de vida.
O meu pai era o meu herói e ele alimentava a nossa curiosidade incansável de crianças com os relatos da sua própria infância, parte dela passada em Nantes com os seus seis irmãos durante a ocupação alemã, no decurso da Segunda Guerra Mundial.
Para preencher os longos serões de verão na casa da praia, ele sentava-se a mesa e esperava pelo pedido habitual –“Pai, conta-nos as tuas histórias de guerra!” – e nós imaginávamos o nosso pai, com os seus 10 anos, a roubar espingardas e capacetes ou até algum barril de pólvora aos soldados alemães, enquanto os aviões ingleses e americanos bombardeavam os pontos estratégicos da cidade.
Fisicamente ele fazia lembrar mesmo um herói, quando em tronco nu, exibia as várias cicatrizes que lhe atravessavam a barriga, de cima a baixo, e cortavam o seu umbigo em dois. Gravemente ferido aos 18 anos de idade, num acidente de mota, guardava as sequelas profundamente marcadas no corpo. Sempre que recordava esse dia de Junho de 1951, dizia que tinha ido ao encontro do seu destino. Em cada aniversário, vivia de novo esse dia fatídico, minuto por minuto. Toda a sua vida, passada e presente, gravitava a volta deste infortunado acontecimento; ele tinha fé e respeito pela medicina moderna e uma profunda admiração pelo cirurgião que durante uma desesperada intervenção cirúrgica lhe salvou a vida, mas apesar destes nobres sentimentos o seu quotidiano era um tormento de dores.
Para assegurar a nossa educação de meninas de boa família, os nossos pais sacrificavam uma parte de um único salário para nos dar uma instrução cristã e católica num colégio privado dirigido por freiras da ordem das Ursulinas Romanas. Esta instituição de renome, inicialmente fundada para educar as raparigas de famílias nobres, era uma das mais prestigiadas da cidade.
Numa propriedade de vários hectares, bordada por castanheiros e vários carvalhos centenários, o edifício principal da escola, cujo nome “Le Château” era tão imponente como a própria estrutura, erguia-se majestosamente na extremidade de um relvado impecavelmente aparado. Ali se davam as aulas. As várias salas tinham outros nomes grandiosos como “Le Grand Salon” ou “Le Donjon”[1]e nas paredes, os retratos a óleo dos séculos passados olhavam para nós com ar enfatuado. O ensino era dos mais rigorosos e a disciplina severa. Os professores eram todos de sexo feminino, mulheres religiosas ou laicas, e o único homem com quem falávamos era o padre que ouvia as nossas confissões semanais. Neste quadro virtuoso e aparentemente idílico, aprendi que Deus era Todo-Poderoso e que o castigo divino seria terrível no Dia do Último Julgamento. As meninas mentirosas, batoteiras e preguiçosas iriam juntar-se aos grandes criminosos da história para arder no inferno eterno.
Entendi que a religião católica era a nossa única salvação, o único caminho espiritual, facto que me confundia bastante quando lia na Bíblia que os Judeus se diziam escolhidos por Deus. E de tanto ouvir falar de Adão e Eva como sendo os primeiros seres humanos da Criação, tinha dificuldade em implantar o homem de Neandertal na cronologia da evolução humana.
Além da missa e das horas de catequese, o nosso quotidiano de discentes resumia-se apenas ao aspecto racional da vida e qualquer tentativa de descoberta do oculto, saldava-se por um sermão da Madre Superior; “As vias do Senhor são impenetráveis. A vida é um mistério que só Deus e os Santos podem explicar”. A nossa missão na terra parecia limitar-se à obediência silenciosa a Deus, aos nossos pais e professores e mais tarde ao nosso marido.
Comecei muito cedo a odiar a escola; sem razão aparente, todos os Domingos ao fim da tarde, sentia uma profunda angústia só de pensar que no dia seguinte marcava o início de uma nova semana. Comecei a adoecer com alguma regularidade, voluntariamente ou não, demonstrando pequenos sintomas de gripe, de anginas ou de mal-estar gástrico e aproveitando inconscientemente o uso aconselhado dos antibióticos para ficar dias inteiros, às vezes semanas, em casa. Essas convalescenças eram oportunidades únicas para receber uma dose suplementar de atenção, carícias e amor materno.
Muito nova descobri uma primeira vocação: queria ser missionária, para ajudar os outros! Os exemplos não faltavam na família e ouvia com muita admiração os relatos de uma tia-avó missionária na ilha de Madagáscar e de outro parente evangelizante numa missão em Africa. Lia também com uma paixão devorante histórias sobre a vida dos santos, procurando encontrar também dentro de mim esta fé inquebrantável que, infelizmente, não sentia vibrar no meu coração.
Quando imaginava o futuro, o ano 2000 aparecia-me como uma data extraordinária porque seria a altura em que iria festejar os meus 40 anos. Celebrar uma idade tão simbólica na mudança do milénio, tinha para mim algo de misterioso e secreto e ansiava por chegar o mais rapidamente possível a esse momento.
Tanto no quadro escolar como na célula familiar, a educação recebida assentava nos princípios burgueses da época, entre os quais respeitar e praticar todos os rituais católicos, ser politicamente de “direita” e obedecer a um rigoroso código vestimentar eram alguns dos mais importantes. O Qu’en dira-t’on[2]ditava a nossa maneira de ser, de pensar e de viver.
Assim, durante os catorze anos consagrados à minha educação escolar, aprendi a cumprir as ordens e a acreditar que tudo estava bem no meu mundo de menina aparentemente dócil e satisfeita. Dos quatro aos dezoito anos, fiz o que devia fazer, pensei o que se devia pensar, vesti o que me diziam ser de bom gosto e apaguei da minha memória as perguntas que ficavam sem respostas.
Felizmente, ao longo da década de setenta, a libertação dos costumes em todas as camadas da sociedade servira de contrapeso ao conformismo estabelecido e os últimos anos de escolaridade, pontuados de festas e outros acontecimentos mundanos, tinham tido um efeito positivo sobre mim. Aos dezoito, optando pela independência e pelo desafio da aventura, parti para estudar Línguas Orientais na Sorbonne em Paris.
Esta decisão acabou por marcar o começo de uma nova vida.
Ao longo dos anos seguintes e abandonando rapidamente os meus estudos, descobri de Paris a Tokyo e de Los Angeles a São Francisco, a outra face do mundo; a autonomia e o contacto com novas culturas enterraram o condicionamento inicial ao qual tinha sido submetida. Deixei de lado os rituais religiosos mas conservei dentro de mim muitos dos valores morais ensinados nos principais mandamentos, abrindo-me desta forma a novos princípios de vida.
~
Nascido em São João da Madeira em 1951, Américo tinha passado os últimos dez anos no território francês, estudando e trabalhando ao mesmo tempo. Ultimamente, juntara o resultado de três anos de época hoteleira nos Pirinéus para concretizar uma viagem de sonho de seis meses no México e Estados Unidos.
Fazia um ano que, cada um do nosso lado, tínhamos descoberto o excitante paradoxo da civilização americana quando, no dia 15 de Julho de 1981, os nossos caminhos se cruzaram em São Francisco.
Esta cidade da Califórnia era então aos meus olhos, um lugar de desleixo e de promiscuidade, uma espécie de Sodoma e Gomorra numa população em grande parte homossexual. Depois do choque inicial, a ligeireza dos costumes parecia uma grande troça à educação recebida das freiras, e aprendi a viver a minha vida independentemente dos homens que trocavam beijos na boca e das mulheres um tanto masculinas que me lançavam uns olhares sedutores. Os transexuais e os travestis que invadiam à noite os passeios do Tenderloin District[3], pouco tinham a ver com as criaturas de barba nascente que na manhã seguinte tomavam o pequeno-almoço ao meu lado no coffee shop da esquina. Este mundo e a sua gente à parte não era realmente meu, mas no hotel barato onde tinha alugado um quarto, partilhava o seu quotidiano exuberante e colorido com serenidade e uma certa graça.
No meio desta selva humana, o Américo fez-me o efeito de um refúgio de lucidez e de bom senso ao abrigo do qual a realidade tinha outro sentido; nove anos mais velho do que eu, ele representava a estabilidade e a segurança, misturadas com a sabedoria de quem cresceu em plena época hippie. O seu sorriso sedutor e a sua voz quente que acompanhava umas baladas na sua guitarra, conquistaram rapidamente o meu coração. Falava um francês impecável, com o ligeiro sotaque cantante do sudoeste de França e conhecia o meu país melhor do que eu; independente e aventureiro, já tinha viajado um pouco por todo o lado.
A nossa união de facto consumou-se e um ano mais tarde decidimos ter um filho; estes foram os únicos sinais da minha rebeldia contra o sistema em geral e contra a educação recebida, em particular.
O ano de 1983 acabou por mudar para sempre as nossas vidas. O nascimento de Thomas, o nosso primeiro filho, selou a nossa união e o nosso amor e atirou-nos para uma vida de responsabilidades e obrigações até agora desconhecidas. A vida a três não tinha nada a ver com a vida a dois, e o nosso quotidiano tomou um rumo diferente do habitual. Nesse mesmo ano, o aparecimento dos primeiros casos de sida começou a abalar a comunidade homossexual de São Francisco. Ao longo de vários meses, observámos com um aperto do coração os sinais do alastramento da doença à nossa volta. Pouco a pouco um medo palpável fez-se sentir em certas partes da cidade e alastrou-se rapidamente ao resto da população.
Tomámos finalmente a decisão de voltar para a Europa, e em Fevereiro de 1984, depois de várias semanas passadas com as nossas respectivas famílias, contemplei pela primeira vez a vista deslumbrante das amendoeiras em flor, nos campos verdejantes do Algarve, a região mais a sul de Portugal.
Albufeira encantou-nos, com as suas casas branqueadas com cal, os seus telhados em açoteias e as suas chaminés de estilo árabe. À beira-mar, o sol de Inverno aquecia vários turistas sentados no terraço de um café azul e branco, em frente à Praia dos Pescadores. No céu em tom de índigo, as gaivotas lançavam os seus gritos estridentes que me faziam lembrar a Bretanha. No mar cintilante, os barcos de pesca coloridos e pitorescos esperavam a sua vez para ser puxados até a praia, enquanto no areal, as mulheres se preparavam para a triagem do peixe, a orla dos saiotes arregaçada e presa na cintura das suas saias.
Destes primeiros dias no Sul, guardo a inesquecível sensação de comunhão com uma terra e um povo, das raízes do qual teci a trama do meu futuro.
Dois anos depois da nossa chegada às terras algarvias, dei à luz a nossa filha Leonor, no Hospital de Faro. Abençoada com dois filhos encantadores, optei por tratar a tempo inteiro da sua educação, dando-me de corpo e alma às três pessoas que preenchiam a minha vida, tal como a minha mãe o tinha feito na sua juventude.
Os anos passaram, felizes na sua maioria, e a paisagem selvagem e agreste desta região ensolarada modernizou-se de tal maneira que ficou irreconhecível...
Mas apesar destas alterações ambientais, o amor que tinha por esta terra nunca parou de crescer.