Copyrights 2005 © Isabelle Legault-Tavares

Todos os Direitos Reservados

Apresentação especial - Formato Internet

Versão Comercial : 15,5cm x 23,5cm

 

 

 

 

 

 

A N O   2 0 0 0

 

 

 

 

 

 

 

1. – Urgências de Faro

           

 

 

 A voz vibrante do grande tenor encetou as primeiras notas do trecho mais comovente de La Bohême de Puccini, enquanto a audiência retinha o seu alento.

O concerto do dia 21 de Junho com Luciano Pavarotti integrava-se nas manifestações estivais do novo milénio no Algarve, e tínhamos conseguido dois bilhetes à última hora. O Américo e eu estávamos sentados no estádio São Luís em Faro desde o pôr-do-sol e uma brisa leve soprava, trazendo da ria Formosa um ligeiro cheiro a maresia. Fechei os olhos para sentir a vaga de emoções submergindo-me, mas em vez do familiar aperto emocional, senti um espasmo doloroso do lado direito do estômago.

- Oh não! Tudo menos isso! - pensei logo. – Não posso ter uma crise numa altura destas!

Ao longo dos anos esta perturbação aparecera várias vezes com alguma irregularidade e na primeira vez, tinham-me diagnosticado uma vesícula preguiçosa. Passava uma noite a vomitar, com dores espasmódicas no estômago e por baixo do diafragma, mas nunca dera muita importância a estes sintomas do meu corpo. Culpava geralmente um pequeno abuso em relação à comida e uma dieta de 48 horas remediava sempre a situação. Mas ultimamente, as crises apareciam com mais frequência, sem todavia, seguir um padrão específico. A última fora uma semana antes, depois de uma discussão acesa com os meus pais acerca da reencarnação e da existência da vida depois da morte. Era um tema particularmente sensível para as suas convicções religiosas.

Eles estavam de férias connosco desde o princípio do mês, e como sempre ao fim de muitos dias passados na companhia uns dos outros, já tinha começado a sentir-me um pouco sob pressão. Apesar de nunca haver crítica aberta da parte deles ou comentários sobre a educação dada aos meus filhos, sentia que, algures, tinha falhado. Eu continuava, aos 40 anos, a precisar da aprovação dos meus pais em relação a mim, ao meu marido e aos meus filhos.

Contudo, este ano as coisas eram um pouco diferentes; queria recomeçar a estudar e tirar um curso de psicologia clínica. Precisava de fazer algo de concreto para mim. Até agora, a minha identidade resumia-se à de “esposa do Sr. Tavares” ou de “mãe” do Thomas ou da Leonor, e passados quarenta anos, ainda não sabia qual era a minha verdadeira identidade. Escolhera não trabalhar, de maneira a educar os meus filhos e vê-los crescer, mas agora angustiava quando pensava no futuro; eles que já eram adolescentes e bastante independentes, não precisavam tanto de mim.

Além disso e nos últimos dois anos, as tensões de quase vinte anos de vida comum com o Américo faziam-se sentir. Ele pressentia que eu estava a mudar mas agarrava-se às ideias convencionais da mulher dócil num casamento do século XIX, feito à medida do homem. Logo o espaço que eu reclamava, era para ele uma afronta e praticamente uma traição à vida de casal. Nos momentos mais intensos desta crise, já tínhamos pensado numa possível separação. Mas não via nesta escapatória uma solução viável porque amava o meu marido apesar da sua teimosia e de certas ideias suas, completamente ultrapassadas.

Porém, as palavras duras e cruéis pronunciadas nesse mesmo dia, logo de manhã, ecoavam ainda ao meu ouvido e atormentavam-me.

Seria mesmo o fim do nosso casamento?

 

O público aplaudiu freneticamente e pediu alguns dos seus temas favoritos para concluir este magnífico concerto.

 

~

 

No dia seguinte, depois de uma noite de dores abdominais passada a esvaziar-me e a vomitar, tomei uma decisão. Queria ver um médico para saber o que se passava comigo uma vez por todas. Era feriado, dia de Corpo de Deus e o Américo telefonou para o Dr. Mendonça, médico das nossas urgências familiares.

No seu consultório da Clioura, enquanto as suas mãos habilidosas apalpavam o meu abdómen, eu tentava captar no seu olhar perplexo alguns sinais elucidativos; mas apenas a tensão dos maxilares e o franzimento dos sobrolhos revelavam algo de anormal.

Pouco depois, íamos a caminho do Hospital de Faro munidos de uma carta de recomendação para o médico da Urgência: o Dr. Mendonça tinha detectado uma massa invulgar na área do meu fígado e consequentemente, pedia uma ecografia e análises de sangue com a maior rapidez.

Ao final da tarde, depois de várias horas de exames, análises e ecografia, chamaram-me de novo para a sala de atendimento das urgências. Lá, sentado numa cadeira, o médico de serviço detalhou-me atentamente por cima dos seus óculos, antes de falar. As letras bordadas no bolso superior da sua bata branca anunciavam que era do Serviço de Oncologia. Da cabeça aos pés, senti o seu olhar passar por cima de mim, assombrado e inquisidor; parecia aproveitar cada segundo deste silêncio explícito para encontrar as palavras certas. A desolação e a resignação inscreviam-se no seu rosto.

Finalmente, iniciou uma série de perguntas pessoais.

- Compreende o português?

- Sim, claro – respondi logo. – Vivo cá há dezasseis anos.

Ele assentiu silenciosamente, satisfeito com a resposta.

- Além dos sintomas actuais, tem tido episódios de diarreia?

-... ... ... Sim.

- Desde quando?

- Hum... ...desde... Dezembro passado – hesitei a responder.

- Com regularidade?

- Sim... duas... três vezes por dia.

- E não fez nada quanto a isso? – insistiu o médico.

- Não… hum… pensei que era do chá verde que costumo beber; é diurético e... não me preocupei muito...

A medida que as perguntas surgiam, apercebia-me da gravidade da minha situação. Como é que podia ter deixado passar seis meses de desequilíbrio intestinal, sem falar da perda de peso, ligeira mas real... e ainda não tinha mencionado os afrontamentos diários, que me deixavam a parte cima do corpo e o rosto vermelhos e quentes. Uma única palavra explicava este comportamento insensato: Medo. O medo de ter uma doença grave, o medo de fazer exames dolorosos, o medo de ter que solucionar os meus problemas, enfim, qualquer desculpa parecia válida.

O interrogatório parou e enquanto eu marcava uma endoscopia para o dia seguinte com uma enfermeira, ouvi a voz uniforme do altifalante no corredor:

Pede-se a comparência do familiar de Isabelle Marie Legault-Tavares na sala Um.”

O oncologista saiu para falar com o Américo a sós. Protestei, demonstrando a minha indignação à enfermeira.

- Não estou de acordo! Tudo o que este médico tem para dizer ao meu marido, quero que diga na minha frente!

O papel de vítima não era para mim; agora que estava aqui, sentia-me capaz de enfrentar qualquer diagnóstico. Contudo, a enfermeira limitou-se a sorrir e não me deixou sair logo.

No corredor, o Américo esperava por mim com ar constrangido, vários envelopes de papel pardo na mão – os relatórios dos exames –. Quando cheguei ao seu lado, ele apertou-me repentinamente contra o seu peito, e com um suspiro engasgado deu-me um beijo na testa.

 - Vamos embora – sussurrou, procurando esconder a sua comoção.

Lá fora, o dia estava lindo. Para o resto do mundo, era um dia de verão como os outros, o sol dançava entre as folhas das palmeiras e os pássaros saltitavam de ramo em ramo num alvoroço ensurdecedor de assobios. Porém, senti que para nós, uma nuvem negra tinha acabado de entristecer o horizonte. Apesar do calor arrepiei-me.

- Malditos médicos, que não são capazes de falar directamente com o doente! Parece que estamos no século passado! - comentei, entrando no carro. – O que é que te disse? É grave?... ... ... Tenho quantos meses de vida? – acrescentei, um pouco tensa devido à falta de comentários.

O Américo concentrava-se exageradamente na manobra, como se quisesse reter nestes últimos minutos de silêncio, a memória de uma felicidade que de repente, se desvanecera. Finalmente, olhou para mim.

- Ele não deu prazo nenhum mas na verdade, ficou muito desanimado. Não percebeu como podes estar fisicamente tão bem perante o que ele viu na ecografia. Ele disse que era melhor não te dizer nada, mas acho que tens o direito de saber. Quem olha para ti nunca imagina isto... – disse, entregando-me os envelopes.

- Típico! – comentei, abrindo o invólucro.

Nas pequenas radiografias, o meu fígado parecia um queijo Suíço, com dezenas de manchas circulares de todos os tamanhos. Já estava a perceber o ar desconcertado do desgraçado médico.

No relatório escrito a mão, tentei decifrar este primeiro diagnóstico:

O fígado apresenta sinais de lesões e incontáveis nódulos de vários tamanhos, dois dos quais com 70 e 90 milímetros de diâmetro, derivados de uma lesão primária ainda não localizada. Recomendamos uma série de exames digestivos a ser realizados neste hospital, nos próximos dias.

Engoli em seco e fixei a estrada, sem comentar o que acabara de ler. De repente, não me apetecia falar; aquilo parecia tão óbvio que um único pensamento aflorava a minha mente – Cancro do fígado ou coisa parecida!

Passados alguns momentos, virei-me para o Américo e rompi o silêncio para tirar a única dúvida que me mantinha ainda na realidade do dia de ontem.

- Um oncologista é um especialista do cancro, não é?

Sem dizer nada ele acenou afirmativamente, olhando continuamente para a estrada, as suas mãos crispadas no volante, uma lágrima correndo lentamente até ao canto da boca.

O momento parecia suspenso no tempo e o mundo desmoronava-se a minha volta.

Porém, passado um momento senti uma estranha serenidade para a circunstância e que me encheu de lucidez e de força. Era como se estivera sempre à espera deste instante.

Logo dei-me conta de uma estranha coincidência; tinha acabado de ler o livro “Nós ainda não nos despedimos[1]de Marie de Hennezel, uma psicóloga francesa, experiente no acompanhamento de doentes em fase terminal de cancro. Aliás, a minha mãe trouxera de França a meu pedido, uma série de livros relacionados com este assunto em particular. O objectivo final do meu curso de psicologia clínica era de me especializar nos Cuidados Paliativos, ainda pouco conhecidos em Portugal. Este livro transmitira-me uma mensagem importante: a doença não era uma fatalidade, mas uma experiência de vida. Era o valor da aprendizagem espiritual que dava a este acontecimento todo o seu sentido.

O segundo pensamento que me ocorreu foi mais positivo ainda; ia viver a experiência de uma doença terminal e ultrapassá-la. Esta atitude dar-me-ia toda a credibilidade para mais tarde poder ajudar os outros.

Em poucos minutos, alterei completamente a minha percepção da situação e este dia inscreveu-se na minha memória, não como o mais infeliz, mas como o começo de uma nova vida.

Parecia ser uma espécie de resposta à minha busca existencial, iniciada dois anos antes. Tinha posto tudo numa balança: o sentido da vida, os valores morais, a minha identidade e o meu casamento. Aos quarenta, enfrentava o maior desafio de sempre, mas com vontade e coragem, ia fazer desta doença uma inesquecível lição de vida.

 

~

 

Nessa noite, reeditei o pedido que desde algum tempo fazia com uma certa regularidade.

Meu Deus, dá-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as coisas que devem ser mudadas, e a sabedoria para conhecer a diferença.

Agora mais do que nunca, precisava de uma ajuda divina.

 

 

 

 


 

[1] Editorial Notícias. Título original “La Mort Intime” Editions Robert Laffont – Paris.